Jorge Paz Amorim

Minha foto
Belém, Pará, Brazil
Sou Jorge Amorim, Combatente contra a viralatice direitista que assola o país há quinhentos anos.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A suruba que rola entre Marinhos e a lavagem de dinheiro


O Anonymous Brasil reproduziu ontem, com alarde nas redes sociais, documentos originalmente publicados pelo blog Tabapuã Papers, em 31 de dezembro de 2016.

É um blog de um post só, mas não podemos cravar se foi criado apenas com o objetivo de disseminar os documentos.

Alguns deles são relacionados ao amigão do peito do usurpador Michel Temer, o advogado José Yunes.

Yunes afastou-se do cargo de assessor de Temer em 13 de dezembro do ano passado, depois de ter seu nome citado em delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de relações institucionais da empreiteira Odebrecht.

Segundo Melo Filho, depois de pedido feito por Temer — algo que o agora ocupante do Planalto admite —, a construtora deu dinheiro para a campanha do PMDB em 2014.

Parte da ajuda foi entregue em dinheiro vivo no escritório de Yunes, em São Paulo.

Yunes afirma que foi “mula” involuntária do agora afastado ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, outro homem muito próximo de Temer, como o Viomundo descreveu aqui.

Yunes conta que recebeu um “envelope” em seu escritório através do doleiro Lucio Bolonha Funaro, que não checou o conteúdo e que alguém não identificado apareceu para retirar a encomenda.

Nos bastidores da política, Funaro é conhecido como o homem da mala do ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, artífice do impeachment de Dilma Rousseff.

De acordo com a versão de Yunes, na ocasião da entrega Funaro narrou um esforço para eleger 140 deputados e colocar Cunha na presidência da Câmara dos Deputados:

— Ele me disse: “A gente está fazendo uma bancada de 140 deputados, para o Eduardo ser presidente”. Perguntei: “Que Eduardo?”. Ele respondeu: “Eduardo Cunha”. Contei tudo ao presidente em 2014. O meu amigo (Temer) sabe que é verdade isso. Ele não foi falar com o Padilha. O meu amigo reagiu com aquela serenidade de sempre (risos). Eu decidi contar tudo a ele porque, em 2014, quando aconteceu o episódio e eu entrei no Google e vi quem era o Funaro, fiquei espantado com o “currículo” dele. Nunca havia conhecido o Funaro.

O episódio abre uma imensa janela para especulações, já que Temer é tido como homem de Cunha — e não o inverso — pelo ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes:

— Qual o grau de envolvimento de Temer nas tramas que levaram Cunha à presidência da Câmara?

— Ele já contava ocupar o lugar de Dilma quando saiu candidato à reeleição como vice dela?

— Por que o juiz Moro bloqueou as perguntas feitas pelo presidiário Eduardo Cunha a Michel Temer, cujas respostas poderiam antecipar o que agora confirma José Yunes?

— Moro agiu com timing político para evitar embaraços ao usurpador?

Mas o que realmente interessa nos documentos é a sociedade entre bilionários brasileiros em torno de um projeto imobiliário na Bahia.

Como se sabe, este é o ramo de Yunes.

Ele criou a Maraú Administração de Bens e Participações Ltda, que tem os dois fihos do advogado como sócios. Também na sociedade aparecem um dos donos do Grupo Globo, José Roberto Marinho, o dono da rádio Jovem Pan, um vice-presidente do Banco Itaú, um sócio da Track & Field, etc.

Para usar linguajar carnavalesco e da moda, é uma verdadeira suruba do PIB.

Que tem como sócia uma empresa de nome significativo: Shadowscape Corporation, o escape para a sombra.

A Shadowscape nasceu nas ilhas Virgens Britânicas, no Caribe, em 04.11.2011, criada pela Mossack & Fonseca, a empresa panamenha especializada em esconder dinheiro por aí.

A direção da empresa, de acordo com os Panama Papers, fica na ilha de Man, outro refúgio fiscal.

Quem assina pela empresa lá é o diretor Ian Andrew Cook. O procurador da Shadowscape no Brasil é um certo JAS. Ele dá como endereço um bairro da região de classe média baixa na zona Sul de São Paulo, onde não foi encontrado.

JAS, o procurador, pode de fato ter conhecimento para pilotar a Shadowscape. Ou pode ser apenas o laranja de alguém graúdo, o verdadeiro dono ou sócio da Shadowscape.

Esse tipo de arquitetuta financeira tem vários usos. Se você é sócio de uma empresa cujo sigilo é protegido por refúgios fiscais, não há nada que impeça fazer uso dela para internar dinheiro que havia saído ilegalmente do País, por exemplo.

As barreiras burocráticas e o sigilo são criados justamente para tornar obscura a origem do dinheiro, seja de evasão fiscal ou do narcotráfico.

A própria Globo, de José Roberto Marinho, já foi pega na boca da botija numa destas operações joão-sem-braço.

Montou nas ilhas Virgens Britâncias uma empresa de nome Empire. Enviou legalmente capital para a empresa. Lá na frente, desmontou a Empire e usou o dinheiro para comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo.

Qual foi a vantagem? A Globo não tirou o dinheiro do Brasil especificamente para comprar os direitos do evento, mas para fazer um investimento externo. Com isso evitou a taxação obrigatória na compra dos direitos. A Receita Federal recebeu denúncia de autoridade estrangeira. Investigou e puniu a Globo. A certa altura, o processo simplesmente sumiu e teve de ser refeito integralmente. A Globo foi enrolando, enrolando, mas não conseguiu desfazer a multa e ao fim e ao cabo pagou R$ 1 bi à Receita em impostos, multas e atrasados.

Valeu a pena? Sim, porque quando a empresa fez o que a Receita definiu como armação, lá atrás, atravessava profunda crise financeira. Quando pagou, nadava em dinheiro.



Qual era o objetivo dos herdeiros de Yunes, da Globo e da Joven Pan ao montar a sociedade?

Construir um condomínio exclusivo na maravilhosa praia de Maraú, na Bahia.

Mais adiante, vejam que interessante manobra: em 25 de abril de 2015 a empresa original desfez-se em outras 11, uma para cada sócio.

A gleba foi dividida. Ainda não sabemos se, ao fazer isso, a turma deixou de pagar as taxas de transferências devidas em cartório em transações imobiliárias.

O fato é que João Roberto Marinho, um dos herdeiros da Globo, montou sua própria empresa para tratar do assunto: a Z House Administração e Participações, tendo como sócia a esposa Vania Maria Boghossian Marinho e como administradores Simone de Paula Nunes e Roberto Pinheiro da Silva.

É uma nova versão da Casa de Paraty, esta agora completamente renegada pela família Marinho. Dizem eles que a neta de Roberto Marinho, Paula, filha de João Roberto Marinho, não tem nenhuma relação com a mansão de concreto ganhadora de prêmio internacional de arquitetura. É tudo com o ex-marido dela, Alexandre.

Não importa o que digam barqueiros, jardineiros, fiscais e outras testemunhas: é como se Paula nunca tivesse pisado lá, como se nunca tivesse assinado como testemunha o contrato que permitiu ao marido, Alexandre, renovar licitação obtida sem concorrência pública para explorar o espaço público do estado de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, contando com milhões em investimento público no empreendimento.

O Ministério Público da Bahia abriu ação civil pública para investigar se foram cumpridas as exigências feitas pela Prefeitura de Maraú na implantação da “ilha da fantasia” dos bilionários.

Será que, como acontece ainda hoje diante da casa de concreto de Paraty, redes para aquicultura serão estendidas, complicando a chegada de turistas a uma praia pública?

Vejam bem, diferentemente da irmã Paula, José Roberto é o “ambientalista” da família Marinho. Presume-se que jamais permitiria a repetição dos crimes ambientais constatados por autoridades na construção da casa de Paraty.

Uma casa que nem dono identificado publicamente tem. O controle é de uma sociedade que inclui a offshore Vaincre LLC, criada pela mesma Mossack & Fonseca no refúgio fiscal de Las Vegas, Nevada. A vantagem é que Nevada permite que o administrador de uma empresa offshore seja outra empresa offshore, criando duas muralhas de proteção contra jornalistas e policiais.

Os Marinho insistem: nada tem a ver com a mansão de Paraty, mas o fato concreto é que anotações apreendidas na sede da Mossack em SP indicam que Paula Marinho pagou as taxas de manutenção não só da Vaincre LLC mas de outras duas offshore, a A Plus Holdings e a Juste Internacional, baseadas respectivamente no Panamá e nas ilhas Seychelles.

A investigação da Mossack foi “desentranhada” da Lava Jato depois que o nome do ex-presidente Lula não apareceu ligado a nenhuma empresa e a PF centrou fogo em algumas, não em todas as offshore mencionadas nos papéis apreendidos. Por tremenda coincidência, a Vaincre LLL, a A Plus e a Juste ficaram de fora. Simplesmente, não interessam!

No negócio da Bahia, a cisão da Maraú serviu para entregar a cada um dos sócios lotes do terreno do empreendimento, mas a sociedade original continua funcionando com o seguinte capital:

José Roberto Marinho (Globo), Shadowscape Corporation (offshore), Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho (Jovem Pan), Ellen (herdeira do falecido banqueiro Roger Wright, ex-Banco Garantia de Jorge Paulo Lemann), R$ 588 mil cada; Jean-Marc (ex-Itaú, agora CVC Capital Partners Limited), R$ 441 mil; Maria Solovieva, R$ 310 mil; Christopher (herdeiro do banqueiro Roger Wright), Andrea Capelo Pinheiro (casada com Newton Simões, dono da construtora Racional), Luis Terepins (dono da incorporadora Even), Alberto Azevedo (Track & Field) e Frederico Wagner, R$ 294 mil.
{Viomundo/ Garganta Profunda}

Nenhum comentário: