No Brasil, historicamente se arrecadou
recursos tirando impostos dos pobres e se gastou mais recursos para
segmentos mais privilegiados da população. Olhando os governos de 2002
para cá, o que nós tivemos foi uma melhora no perfil do gasto
público. No entanto, nós temos no Brasil uma estrutura tributária
regressiva. Os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que
os mais ricos"
O
Brasil diminuiu a desigualdade nos últimos anos e milhões de pessoas
deixaram a pobreza. Porém, o país ainda está entre os vinte mais
desiguais do mundo. Para avançar, uma das mudanças urgentes é a reforma
tributária.
É o que diz Márcio Pochmann, um dos principais
economistas do país. “Aqui, são os ricos que reclamam dos impostos, mas
quem paga mais são os pobres”, afirmou em entrevista ao Brasil de
Fato. Segundo ele, há uma grande resistência dos mais ricos em mudar
essa estrutura. “Um exemplo foi a tentativa de mudar a cobrança do IPTU
em São Paulo”, diz.
Pochmann é professor da Unicamp e presidente
da Fundação Perseu Abramo. Foi secretário de desenvolvimento na
prefeitura de Marta Suplicy em São Paulo e presidente do Ipea
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Nesta conversa, ele fala
ainda sobre a importância política dos trabalhadores que saíram da
pobreza nos últimos anos e analisa o fenômeno dos rolezinhos. “São
manifestações que mostram a falta de espaços públicos”.
O
Bolsa Família, maior programa de distribuição de renda do governo
federal, completou dez anos. Porém, continuamos como um país muito
desigual. Por que isso permanece?
Em 1980, nós éramos a
oitava economia capitalista do mundo, tínhamos praticamente metade da
população vivendo em condições de pobreza e estávamos entre os três
países mais desiguais do mundo. Essa situação praticamente permaneceu
durante mais de vinte anos. Foi só num período mais recente que nós
conseguimos reduzir a pobreza e a desigualdade. Hoje, nós estamos entre
os quinze países mais desiguais do mundo. Houve uma redução
importante. E isso num período difícil em termos internacionais, devido
a crise econômica de 2008.
O que dificulta que esse processo avance mais?
Existem
dificuldades do ponto de vista político e cultural. Nós temos, no
Brasil, uma classe média tradicional que tem uma série de assistentes na
casa: trabalhadores domésticos, babá, segurança. É um conjunto de
pessoas que serve à classe média e aos ricos com base em baixos
salários. Com o combate à pobreza e a redução da desigualdade, essa
classe média tradicional vai perdendo a capacidade de abrigar todos
esses serviços. E aí há uma reação, uma resistência no interior da
sociedade. E tem o preconceito também. Em geral, um segmento muito
pequeno da sociedade tinha acesso ao uso do transporte aéreo, de poder
viajar para outros países, por exemplo. Hoje, segmentos com menor renda
também podem ter acesso. Isso gera um desconforto.
Quais medidas ainda precisam ser tomadas para diminuir essa desigualdade?
A
reforma tributária certamente é uma delas. No Brasil, historicamente
se arrecadou recursos tirando impostos dos pobres e se gastou mais
recursos para segmentos mais privilegiados da população. Olhando os
governos de 2002 para cá, o que nós tivemos foi uma melhora no perfil do
gasto público. Ele se voltou mais para os segmentos mais pobres. Isso é
fundamental. Mas ainda há o ponto de vista da arrecadação. Da onde vem
o imposto? Nós temos no Brasil uma estrutura tributária regressiva. Os
mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais
ricos.
Há perspectivas de melhorar essa conta?
O
caso de São Paulo me parece exemplar. Aqui houve a proposta de
reajustes diferenciados do IPTU, de acordo com o grau de elevação nos
valores dos imóveis. Mas isso gerou uma reação dos meios de
comunicação, dos muito ricos, que praticamente impediram na justiça a
possibilidade de se melhorar o perfil da arrecadação de impostos no
município. A gente percebe que, no Brasil, quem mais critica os
impostos são os mais ricos, justamente os que pagam menos. Nós temos
aqui em São Paulo o impostômetro, que fica no centro da cidade. Na
realidade nós precisaríamos de impostômetro nas favelas. Porque é lá
que se paga imposto e praticamente quase nada se recebe do Estado.
Os mais pobres têm consciência de que pagam mais impostos?
Os
mais ricos têm mais consciência, até porque o tipo de impostos que
eles pagam são conhecidos, são sobre propriedade. Você recebe o carnê e
sabe quanto paga de imposto. A maior parte dos pobres no Brasil não
tem propriedade. Então eles não têm identificação nenhuma de quanto
pagam. Os impostos que os mais pobres pagam são os chamados impostos
indiretos, que já estão vinculados ao preço final de um produto. Você
não sabe quanto paga, por isso não gera esse questionamento.
Hoje fala-se muito da nova classe média. Há uma nova classe social em ascensão?
O
que nós tivemos foi uma leva de 40 milhões de pessoas que eram
considerados trabalhadores muito pobres, miseráveis, e que se
transformaram em trabalhadores não pobres. Pessoas que passaram a ter um
salário melhor, ter acesso à previdência social, direitos
trabalhistas, creche, ampliaram o consumo. É semelhante ao que já
ocorreu em outros países. Na França na década de 1950, de cada dez
operários, um tinha automóvel. No final dos anos 1970, de cada dez, dez
tinham automóvel. Ou seja, eles melhoraram de renda, passaram a ter um
consumo que antes era visto como somente para os ricos, mas eles
jamais deixaram de ser operários, trabalhadores, não mudaram de classe
social.
A inclusão dessas pessoas se deu principalmente pelo consumo. Quais as conseqüências disso?
O
consumo em geral é a porta de entrada. Estamos tratando de segmentos
pauperizados para quem a adição de renda permite realizar demandas, até
estimuladas pelos meios de comunicação, que anteriormente eram
reprimidas. É natural que isso ocorra, não vejo nenhum mal. A
preocupação maior é que, em algum momento, esse segmento que emergiu vai
governar o Brasil. É um segmento em expansão, mais ativo, com uma
série de demandas e anseios. E ele olha para a estrutura de
representação que nós temos hoje, e ela não os representa.
Como assim?
Os
partidos não conseguem representar esses novos segmentos, assim como
os sindicatos, as associações de bairro, as instituições estudantis.
Nós tivemos mais de 20 milhões de empregos abertos e a taxa de
sindicalização não aumentou. Nós tivemos mais de um milhão de jovens,
em geral de famílias humildes, que ascenderam ao ensino superior,
através do Prouni, mas eles não foram participar das discussões
estudantis. Alguma coisa está estranha. Há certo descompasso entre as
instituições de representação de interesses e esses segmentos que estão
emergindo. E essa é a tensão na política de hoje, saber para onde vai
isso. Porque, embora não seja um contingente homogêneo, é um grupo de
pessoas que, organizadamente, fará a diferença na política no Brasil. E
esse é um desafio.
Vimos recentemente o fenômeno dos rolezinhos. O que esses eventos mostram sobre o momento do país?
A
impressão que eu tenho é que esses movimentos expressam uma
insatisfação. Acho que há neles uma crítica relativa ao grau de riqueza
que o país tem, mas que não dá acesso plenamente para essa população.
São manifestações que desejam mais, que cobram dos governos serviços de
melhor qualidade. E não só serviços públicos. Temos hoje problemas
seríssimos de serviços no país. Há uma crítica inegável aos serviços
bancários no Brasil, aos serviços de telecomunicações, de saúde privada.
Estamos num momento em que essa tensão em torno da questão dos
serviços se associou à emergência desses novos segmentos da população.
São pessoas que estão satisfeitas com a ascensão, mas querem mais.
No caso dos rolezinhos, qual seria a demanda?
Acho
que é uma tensão em torno da questão do espaço público. É uma visão
que se tem de que o shopping center é hoje um dos poucos espaços em que
você tem segurança, tem lugares para caminhar. O que infelizmente a
cidade não tem, não tem calçadas decentes, não tem um espaço público. O
sonho de muitos prefeitos anteriormente era construir muitos espaços
públicos, áreas de lazer, de entretenimento. Hoje isso se perdeu em
nome da privatização do espaço público. É uma tensão também em torno de
como ocupar o tempo livre, porque hoje praticamente inexistem
oportunidades coletivas, públicas e adequadas para isso.
Dá para dizer que essa é uma das principais preocupações do jovem hoje?
Em
parte sim. Mas nós ainda temos questões graves na juventude
brasileira. Ainda temos um problema de desemprego. Não é um desemprego
comparado ao de países europeus como Espanha e Grécia. É muito menor.
Mas ainda há um problema de inserção no mercado de trabalho. Também tem
a questão da qualidade do emprego. Temos empregos de baixa qualidade,
principalmente para os jovens mais pobres. Ao mesmo tempo, uma pesquisa
da Fundação Perseu Abramo mostra que o jovem também não quer só
emprego e renda. Ele quer também um outro horizonte de vida, que ele
não consegue se observar na realidade que nós vivemos hoje.
(Brasil de Fato)

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