O general Amaury Kruel foi ministro da Guerra
do ex-presidente João Goulart (1961-1964). Considerado fiel, foi
designado ao comando do 2º Exército, em São Paulo. Goulart foi deposto,
com apoio de Kruel, que no dia anterior ao golpe havia declarado
publicamente que se o presidente não expurgasse “os comunistas de seu
governo” ele não mais o apoiaria.
Porém, a história contada pelo coronel
reformado revela que a mudança repentina de atitude do general Kruel
pode não ter sido por questões ideológicas, mas econômicas.
Em 1964, Moreira era major-farmacêutico do
Exército em São Paulo. No dia 31 de março, o coronel Tito de Oliva Maia,
diretor do Hospital Geral Militar, procurou por ele e solicitou que
emprestasse a sede do laboratório de análises clínicas, do qual Moreira
era proprietário, para realizar uma reunião. Ali, Amaury Kruel receberia
pessoas que não poderiam ser recebidas na sede do grupamento, nem no
Hospital Militar.
Sem entender, o então major levou coronel Tito
até o local, no bairro da Aclimação, centro da capital. Pouco depois
Kruel chegou, acompanhado de cinco batedores. Mais alguns minutos e
chegou ao local o então presidente da Fiesp, Raphael de Souza Noschese,
acompanhado de três homens, cada um com duas malas.
Moreira estranhou as malas e, temendo um
atentado, exigiu que fossem abertas. “Eram seis maletas. Eu estava com o
general lá, com a vida garantida em meu laboratório. Podia ter ali uma
bomba, um revólver, ou qualquer coisa que atacasse a gente e matasse o
general”, explicou. “Eu mandei abrir as malas. Foi quando começou uma
briga e eu vi que era só dólar, dólar, dólar, todas elas cheias de
dólar. Amarradinho do banco.”
Segundo o relato, todos foram para o andar de
cima. Menos Moreira e os batedores. Algum tempo depois Kruel chamou por
ele e disse: – Põe estas maletas no porta malas do meu carro e traz a
chave para mim.
“Não tive dúvidas. Fui lá, coloquei no carro,
fechei e entreguei a chave para ele”, comentou. Segundo Moreira, coronel
Tito lhe disse que havia US$ 1,2 milhão e que o dinheiro fora enviado
pelo governo americano.
O hoje coronel reformado acreditava que se
tratasse de dinheiro para ações contra o golpe. “O general Amaury Kruel
esteve com a gente de manhã e disse uma coisa muito simples: O Goulart
não cai. Eu morro, mas ele não cai. É meu compadre, nós somos amigos de
infância. Fui posto aqui para garanti-lo.”
Ao voltar ao hospital, mais à noite, Moreira
ouviu no rádio o pronunciamento de Kruel, colocando-se contra Goulart.
Logo depois foi chamado pelo coronel Tito para uma reunião. “Ele disse
assim: 'Senhores, o general Amaury Kruel, mandou o coronel (de
infantaria) aqui para saber se estão ao lado dele ou se estão contra
ele. Porque ele acabou de aderir à revolução'”.
Para o presidente da Comissão da Verdade da
Câmara, vereador Gilberto Natalini (PV), o depoimento de Moreira é
“bombástico”. “Agora vamos sentar, analisar e levantar nomes possíveis
para depor”, disse, em entrevista publicada na página da Câmara. “O que
ele contou vai contribuir muito para a nossa linha de investigação – que
é o financiamento civil da ditadura militar.”
Perseguição
Moreira relatou ainda que contestou o
recebimento do dinheiro pelo general Kruel e acabou cassado. “De manhã,
quando fui voltar ao trabalho, o general Tito me disse: 'Major, você
está em férias a partir de hoje. Vai para casa, pega família, vai viajar
um pouco para melhorar essa cabeça sua'. Enquanto eu estive fora
encenaram uma documentação falsa de que eu era subversivo e me
cassaram.”
Os problemas não pararam aí. Moreira
afirmou que o Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) colocou uma
banca de jornal na frente do laboratório dele para vigiá-lo. Depois
disso, ainda teve de se mudar por conta das constantes difamações que
sofria. “Eu tive de mudar de casa, ali do Cambuci, porque a minha
mulher saia na rua e os vizinhos ficavam na janela da sala dizendo:
'olha a mulher do comunista'.”
O coronel reformado afirmou durante o
depoimento que nunca se envolveu com questões políticas. “Eu nunca fui
comunista. Sou brasileiro nato, adoro meu país, nunca tive problema com
político nenhum, nunca me envolvi em política”, disse.
Moreira foi anistiado em 1979, devido à Lei de
Anistia, e conseguiu na Justiça o direito de ser promovido a ponto
máximo da carreira, aposentando-se como coronel-farmacêutico.
Noschese, ex-presidente da Fiesp, morreu em 2000, aos 90 anos.
Em nota publicada em reportagem de O Globo, a federação afirmou que “é
importante lembrar que a atuação da entidade tem se pautado pela defesa
da democracia, do Estado de Direito e pelo desenvolvimento do Brasil”.
Segundo a entidade empresarial, “eventos do passado que contrariem esses
princípios podem e devem ser apurados”.
(Rede Brasil Atual)

Nenhum comentário:
Postar um comentário