Jorge Paz Amorim

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Sou Jorge Amorim, Combatente contra a viralatice direitista que assola o país há quinhentos anos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Liderança kaiowá faz alerta contra massacres diários no MS

Por Paula Salati
Caros Amigos


“Vim hoje aqui para trazer um clamor do povo Guarani Kaiowá à sociedade”, declarou o indígena Ládio Verón, no início da coletiva de imprensa que precedeu o Ato contra o genocídio da população guarani kaiowá, no dia 29 de novembro em São Paulo. A atividade foi organizada por diversas entidades que compõe a Rede de Proteção aos Militantes Ameaçados de Morte, entre elas, a Apropuc-SP e o Tribunal Popular.

A vinda apressada de Ládio Verón do Mato Grosso do Sul até São Paulo, ocorreu após os recentes ataques de latifundiários ao seu povo no dia 18 de novembro, quando cerca de 40 pistoleiros mascarados invadiram, a mando de fazendeiros, o acampamento indígena Tekohá Guaiviry, no município de Aral Moreira (MS). Os pistoleiros assassinaram o cacique Nísio Gomes com tiros de calibre 12 na cabeça e no peito, e o levaram em uma caminhonete junto com mais três crianças. Todos eles ainda estão desaparecidos.

No entanto, a denúncia e o apelo que o guarani kaiowá trouxe de seu povo se refere a todas as atrocidades que são cometidas aos indígenas cotidianamente na região, em nome da expansão do agronegócio e que seguem impunes e sem uma intervenção mais incisiva por parte do Governo Federal. “De 2002 até hoje já perdemos 28 lideranças e 14 crianças, que foram assassinadas e massacradas cruelmente. Esta luta está cada vez mais difícil para nós”, afirma Ládio com lágrimas aos olhos.

De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 2003 e 2010, cerca de 253 indígenas foram assassinados no MS. Ládio Verón relata que as invasões de pistoleiros são realizadas com extrema violência e que os mandantes do crime chegam atirando em idosos e crianças sem preocupação.

“Vim aqui pedir a todas as autoridades, a todos os juízes, deputados, senadores, à presidente Dilma que sintam nossa dor. Não queremos mais ver nossas lideranças morrerem, nós queremos viver. Que cada um de vocês aqui ajudem nós (sic), olhando para as nossas crianças, para os nossos anciões, nossos idosos, pelas nossas famílias e que ajudem a cobrar as autoridades para que demarquem nossas terras logo e que façam a homologação”, pede o guarani kaiowá, que também está na lista dos ameaçados de morte no MS.

Modelo explorador

A expulsão violenta dos indígenas de suas terras originais e o desmatamento da região no MS, se intensificam à medida que se expande os pastos para a pecuária e os monocultivos da soja, do milho e da cana de açúcar para a produção de biocombustíveis, como no caso do etanol, que tem atraído cada vez mais empresas transnacionais para a região. “O que se vê em nossas terras no Mato Grosso do Sul é uma devastação total, onde um pé de cana vale mais do que um índio, onde um boi vale mais do que uma comunidade indígena, onde um pé de soja tem mais valor que nós. As nossas terras estão cobertas de vários outros empreendimentos e já foram construídas 18 usinas em cima das terras indígenas, sendo que, no total, são 40 usinas para ser construídas. Não se vê mais mato, além de soja, cana e boi”, relata o kaiowá.

Sassá Tupinambá, integrante do Movimento Indígena Revolucionário e que esteve ao lado dos kaiowás nos últimos dias, também esteve presente na coletiva e lembrou que, o acordo firmado entre os ex-presidentes Lula e George W. Bush no ano de 2007 para impulsionar a produção de etanol no Brasil tem tornado cada vez mais sangrenta a luta por terra no MS.
Além disso, ele resgatou a passagem de Lula no MS que, em época de campanha eleitoral para a presidência de 2003, prometeu ao cacique Marco Verón a demarcação das terras reivindicadas pelos indígenas na região, o que até hoje não ocorreu. “Verón, infelizmente, não pôde ver o que o presidente não fez”, diz Sassá. Marco, pai de Ládio, foi morto no ano de 2003 a mando do fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho, que também não foi condenado.

“O Lula, que tinha prometido a demarcação de terras, inaugurou em 2009 usinas em cima das terras do povo guarani kaiowá, ao invés de demarcá-las. Dá pra entender porque o povo guarani kaiowá sofre todos esses ataques hoje, não é tão misterioso assim. Dá pra entender por que os fazendeiros fazem ataques sem medo, porque sabem que irão ficar impunes”, denuncia Sassá.

Demarcação

Segundo o Cimi a população Guarani-Kaiowá conta com mais de 45 mil pessoas que se distribuem em um espaço de apenas 42 mil hectares de terra, o que não chega nem a 5% das terras indígenas originais. Muitas comunidades estão morando atualmente em beiras de rodovias, sujeitas a atropelamentos.

Sobre a demarcação de terras, Ládio Veron diz que muitos não entendem que a luta indígena hoje é por sobrevivência e que o significado da terra é diferente na cultura indígena. “A nossa luta não é para que seja demarcado todo o MS, a luta nossa hoje é para viver em um pedaço de terra onde viveram os nossos antepassados, os nossos ancestrais, é essa terra que queremos de volta, e elas não são grandes. Queremos um pedacinho para plantar mandioca, para criar galinha, produzir alimentos para os nossos filhos comerem, para nós sobrevivermos, é por isso que estamos lutando”, explica Veron.

Em 2009, os laudos antropológicos e o documento de homologação das terras a serem demarcadas no MS ficaram prontos, no entanto, ainda não foram assinados pelo Governo Federal. Ládio conta que a comunidade indígena sempre formulou documentos e reivindicou audiências com a presidência para resolver a demarcação de terras, porém nunca foram atendidos.

Desrespeito

Vale lembrar que a Constituição Federal de 1988 assinalou que, em um prazo de 5 anos, todas as terras indígenas já estariam demarcadas. “Para quê foi feita a Constituição, se nem ela está sendo respeitada? Para o governo, parece que nós não existimos”, diz Ládio com indignação.

Mesmo que um dia algumas terras venham a ser demarcadas, o guarani kaiowá comenta que haverá muito trabalho para restaurar a qualidade das terras, já que as mesmas estão sendo prejudicadas com uso constante de agrotoxicos. Ele afirma ainda que a contaminação das águas vem provocando o surgimento de doenças e mortes entre os indígenas na região no MS.

Além disso, os casos de desnutrição infantil aumentaram nos últimos anos e a expulsão de suas terras faz com que os indígenas dependam cada vez mais de cestas básicas do governo e de doações.

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