Jorge Paz Amorim

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Sou Jorge Amorim, Combatente contra a viralatice direitista que assola o país há quinhentos anos.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Uma análise séria a respeito da mistificação do déficit habitacional


A tragédia o edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo, ocupado por sem-tetos e que desabou após incêndio trouxe a vista novamente a questão do déficit habitacional que o Brasil enfrenta.

O que se viu, na imprensa, no entanto, foi tudo, menos uma discussão séria sobre esse problema. Tratou-se de culpabilizar das vítimas e, como não poderia deixar de ser, culpabilizar o PT e o Programa Minha Casa - Minha Vida. Ainda que eles não estejam mais no poder.

No entanto, é a crise econômica trazida com o Golpe de 2016 a grande responsável por aquelas pessoas estarem onde estavam.

A urbanização da população brasileira sem dúvida é um fator a ser considerado – 88% do déficit habitacional é urbano. Combinado com o aumento da expectativa de vida dessa população.

Quando se analisa os dados percebe-se uma melhora quase que contínua dos indicadores nos últimos 15 anos.




Em termos absolutos havia um déficit habitacional de 7 milhões e 223 mil unidades habitacionais em 2000 e em 2014 esse déficit, em termos absolutos, havia se reduzido a 5 milhões 315 mil unidades. Uma redução do déficit habitacional de quase dois milhões de unidades. Em termos proporcionais, o déficit habitacional reduzi-se de 16,1% do total de domicílio em 2000 para 9,0% dos domicílios em 2014.

Mas há detalhes a serem analisados.

O primeiro é quanto aos valores de 2000 e 2010. Eles seriam sempre maiores do que os dos outros anos porque se baseiam em dados do Censo. Nos outros anos os dados foram retirados das PNAD – pesquisa nacional por amostra de domicílio – que tem uma cobertura menor.

Mesmo assim, nota-se uma melhora significativa na redução dos índices do déficit habitacional entre esses dois momentos – 4 pontos percentuais ou 282 mil domicílios retirados desse déficit. Em 2000 o déficit era de 7 milhões e 223 mil domicílios – 16,1% do total de domicílios – em 2010 o déficit habitacional era de 6 milhões 941 mil domicílios – 12.1%.

Isso com a população brasileira crescendo 12,3% nesse período. Passando de 175,3 milhões de habitantes para 196,8 milhões em 2010.

A população cresce e o déficit habitacional se reduz. É possível se perceber claramente a grande melhora do período. Foram os anos Lula.

Com Dilma haverá uma melhora inicial em relação aos governos Lula e depois uma estabilização da média de 5 milhões e 500 mil domicílios de déficit habitacional - 9% dos domicílios existentes – durante todo os anos em se manteve no poder.

E finalmente, com Temer, o início da reversão da trajetória de melhoria e a volta do crescimento do índice do déficit habitacional; de 9% - 5 milhões e 315 mil domicílios - em 2014 para 9,3% do total de domicílios – 6 milhões 356 mil domicílios, em 2015. Um acréscimo de mais de 1 milhão de domicílios a esse déficit, em apenas um ano.

Mais um dado que demostra a tragédia do golpe.

Minha Casa - Minha Vida – o colchão de amortecimento social

Esse é outro dado a ser analisado. O programa Minha Casa - Minha Vida lançado por Dilma Rousseff em 2009 aparentemente não trouxe maiores resultados para diminuição do déficit habitacional. O índice manteve-se estagnado em 9,0% dos domicílios durante todo o governo Dilma.

Mas essa é uma análise equivocada. Considerando-se os efeitos crise mundial na economia a partir de 2008, a estabilização do déficit, nesse momento de crise, é um grande resultado.

Ainda mais considerando que a população brasileira alcançou 204,2 milhões de habitantes em 2014 com um crescimento de 3,8% desde 2010 – quando Dilma assumiu o governo.

O Programa Minha Casa Minha Vida, segundo dados do governo de março de 2016, entregou 2,6 milhões unidades habitacionais, desde 2010. E mesmo assim o déficit habitacional não regrediu.

Não há aqui nenhum contrassenso. A explicação é simples. A crise precarizou o mesmo número de famílias quanto o Programa Minha Casa - Minha Vida pode acrescentar de unidades habitacionais.

O Programa Minha Casa Minha Vida, portanto, atuou como um colchão amortecimento da deterioração social vinda com a crise mundial de 2008.

O colchão esvaziado

Quando o governo Temer esvazia esse colchão, a degradação social é imediata.

Isso porque dados de 2014 mostram que o déficit habitacional está preponderantemente na faixa de renda familiar até 3 salários mínimos – 83,9%. Se consideramos as famílias com até 5 salários mínimos de renda, cobriremos 93,6% do déficit habitacional.

Foi justamente esse agrupamento social que foi duplamente penalizado.

Primeiramente com o desemprego a partir do golpe de 2016. A taxa de desemprego passou de 4,3% em dezembro de 2014 para 13,1% em abril de 2018. E depois com a redução pelo governo Temer das verbas do Minha Casa - Minha Vida para a faixa mais pobre da população.

Há que se considerar ainda que o Minha Casa Minha Vida atende um público por faixas de renda. As mais sujeitas aos efeitos do déficit habitacional são justamente as faixas 1 e 1,5 do programa que tiveram verbas reduzidas por Temer. Mas o programa atende até a faixa 3 para famílias com renda de até 9 mil reais. Essas famílias estão claramente a salvo dos efeitos do déficit habitacional, mas mesmo assim são atendidas pelo Minha Casa - Minha Vida que, nesse caso, acaba atuando mais como um programa de incentivo ao setor de construção civil.

Déficit habitacional – uma ilusão provocada pela crise econômica

Há ainda um dado que deve ser considerado com especial atenção nas pesquisas da Fundação João Pinheiro sobre déficit habitacional. O de que ele simplesmente não existe, quando se considera o número de imóveis vagos em condições de serem habitados.

Pelos números de 2014, o déficit habitacional era de 5 milhões 315 mil unidades. Porém, os pesquisadores encontraram 7 milhões e 241 mil domicílios vagos. Desses, 6 milhões e 354 mil em condições de serem ocupados e 886 mil em construção ou reforma.

Logo, por esses dados, há um superávit habitacional e não um déficit. Algo em torno de 1 milhão e 800 mil unidades habitacionais a mais do que o necessário para suprir o déficit habitacional.

Por que então do déficit?

Porque a crise econômica que traz o desemprego também elimina, por consequência, o acesso ao crédito e, então, esses imóveis não comercializados acabam funcionando como reserva de valor para seus proprietários, seria uma explicação.

Óbvio também que a solução de simplesmente transferir sem-teto para esses imóveis não passa de uma ilusão. Ainda que acalentada pelos que acreditam em uma revolução de feitio socialista e na reforma urbana que viria com ela.

No mundo real a solução não é tão simples. Esses imóveis, por exemplo, não estão uniformemente distribuídos pelo território nacional cobrindo as necessidades urbanas e rurais ou das periferias das grandes metrópoles. Mas esses imóveis existem. E estão desocupados. Isso é fato.

E assim, em um país extremante injusto como o Brasil, pessoas são obrigadas a viver em condições precárias de habitação, enquanto imóveis ficam vagos a espera de uma população com renda suficiente para a aquisição ou o aluguel.

É a economia, estúpido. Uma estúpida ilusão de ótica econômica.
(Sérgio Saraiva/ GGN)

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