
"...e Adão viu Iavé tirar-lhe da costela um ser que os homens se obstinam em proclamar a coisa mais perfeita da criação: Eva. Invejoso o macaco o primeiro homem resolveu criar também. E como não soubesse ainda cirurgia para uma operação tão interna quanto extraordinária tirou da língua um outro ser. Era também - primeiro plágio! - uma mulher. Humana, cósmica e bela. E para exemplo das gerações futuras, Adão colocou essa mulher nua e eterna no cume do Ararat. Depois do pecado porém indo visitar sua criatura notou-lhe a maravilhosa nudez. Envergonhou-se. Colocou-lhe uma primeira coberta: a folha de parra.
Caim, porquê lhe sobrassem rebanhos com o testamento forçado de Abel, cobriu a mulher com um velocino alvíssimo. Segunda e mais completa indumentária.
E cada nova geração e as raças novas sem tirar as vestes já existentes sobre a escrava do Ararat sobre ela depunham os novos refinamentos do trajar. Os gregos enfim deram-lhe o coturno. Os romanos o peplo. Qual lhe dava um colar, qual uma axorca. Os indianos, pérolas; os persas, rosas, os chins, ventarolas.
E os séculos depois dos séculos...
Um vagabundo genial nascido a 20 de Outubro de 1854 passou uma vez junto do monte. E admirou-se de, em vez do Ararat de terra, encontrar um Gaurisancar de sedas, setins, chapéus, jóias, botinas, máscaras, espartilhos... que sei lá! Mas o vagabundo quis ver o monte e deu um chute de 20 anos naquela eterogénea rouparia. Tudo desapareceu por encanto. E o menino descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, falando por sons musicais, desconhecendo as novas línguas, selvagem, áspera, livre, ingênua, sincera.
A escrava de Ararat chamava-se Poesia.
O vagabundo genial era Artur Rimbaud.
(E essa mulher escandalosamente nua é o que os poetas modernistas se puseram a adorar... Pois não ha de causar estranheza tanta pele exposta ao vento á sociedade educadíssima, vestida e policiada da época atual?)”
Pois é. Entre os séculos onde se acumularam os vários e "novos refinamentos do trajar", até a chegada do 'vagabundo genial', está acorrentado o desejo da ministra tucana que concebe sua escravidão não à necessidade de ostentação que a impulsionou à ridícula comparação.
Caim, porquê lhe sobrassem rebanhos com o testamento forçado de Abel, cobriu a mulher com um velocino alvíssimo. Segunda e mais completa indumentária.
E cada nova geração e as raças novas sem tirar as vestes já existentes sobre a escrava do Ararat sobre ela depunham os novos refinamentos do trajar. Os gregos enfim deram-lhe o coturno. Os romanos o peplo. Qual lhe dava um colar, qual uma axorca. Os indianos, pérolas; os persas, rosas, os chins, ventarolas.
E os séculos depois dos séculos...
Um vagabundo genial nascido a 20 de Outubro de 1854 passou uma vez junto do monte. E admirou-se de, em vez do Ararat de terra, encontrar um Gaurisancar de sedas, setins, chapéus, jóias, botinas, máscaras, espartilhos... que sei lá! Mas o vagabundo quis ver o monte e deu um chute de 20 anos naquela eterogénea rouparia. Tudo desapareceu por encanto. E o menino descobriu a mulher nua, angustiada, ignara, falando por sons musicais, desconhecendo as novas línguas, selvagem, áspera, livre, ingênua, sincera.
A escrava de Ararat chamava-se Poesia.
O vagabundo genial era Artur Rimbaud.
(E essa mulher escandalosamente nua é o que os poetas modernistas se puseram a adorar... Pois não ha de causar estranheza tanta pele exposta ao vento á sociedade educadíssima, vestida e policiada da época atual?)”
Sua nudez moral é irmã siamesa do luxo que escondeu a resplandecente nudez relatada e suas razões não passam de peroração idiota a respeito do luxo que ocultou por séculos a beleza e desta ela não dá conta, optando por fazer apologia do enfeite secular que o machismo impôs.
Só mesmo um gênio como Mario de Andrade pra explicar com todas as letras e minúcias o discurso boçal e ostensivo da privata ministra do golpismo.
(Trecho da obra 'A Escrava Que Não É Isaura'- Mario de Andrade)

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