Obrigatório em cidades com mais de 20 mil habitantes, a existência
efetiva do Plano Diretor Estratégico em uma metrópole como São Paulo é
algo que se faz urgente e necessário. A ação é prevista na Constituição
Federal, regulamentada pela lei 10.257/2001, conhecida como Estatuto
das Cidades, que afirma que a lei que instituir o Plano Diretor nos
municípios deve ser revista, pelo menos, a cada 10 anos.
Elaborado e aprovado em sua primeira versão em 2002, durante a gestão
de Marta Suplicy (PT), o Plano Diretor Estratégico da cidade de São
Paulo sofreu uma tentativa de revisão em 2006, mas o processo de
discussão da proposta foi paralisado, por ser considerado pouco
transparente e por conta de inúmeros questionamentos judiciais.
Com a mudança no poder municipal em 2013, a discussão voltou à tona,
pois a revisão do Plano Diretor foi uma das promessas de campanha do
então candidato Fernando Haddad, que iniciou uma série de encontros com a
sociedade para discuti-lo. Tal planejamento serve para regularizar e
organizar diversas questões fundamentais para o desenvolvimento
sustentável da cidade, como transporte e mobilidade, ofertas de
infraestrutura e de emprego, lazer e, algo muito discutido e alvo de
intensas e constantes mobilizações sociais na capital paulista, a
moradia.
De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, São Paulo tem hoje
cerca de 890 mil famílias que vivem de maneira precária, ou seja, em
favelas, loteamentos irregulares, núcleos urbanizados, cortiços,
conjuntos habitacionais irregulares; e sob algum tipo de inadequação,
seja de posse ilegal dos seus imóveis ou morando em área de risco.
Neste caso, a maioria depende apenas de obras de infraestrutura e do
processo de regularização fundiária para se integrar ao mercado
formal. Para zerar o déficit habitacional real hoje, seria necessária a
construção de 230 mil moradias.
“O novo Plano Diretor Estratégico vai estimular a produção de
Habitação de Interesse Social (HIS) para famílias com até 1.600 reais de
renda familiar. Estudos mostram que o déficit para essa faixa de renda
é mais representativo, cerca de 80% das famílias que compõem o déficit
habitacional estão nessa faixa de renda”, afirma o secretário de
habitação da cidade, José Floriano.
Mas para Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto (MTST), que promove diversas ocupações em
terrenos e prédios na cidade, para que o Plano Diretor possa, de fato,
ter um impacto na questão da moradia, é preciso que seja aprofundado os
mecanismos de combate e de controle à especulação imobiliária que assola
a capital. Dentre tais mecanismos estão o IPTU progressivo para imóveis
ociosos e a troca de dívidas por terras. “O problema é que estes
mecanismos seguem como sendo letra morta, porque o Estatuto das Cidades
depende de regulamentação municipal que é o Plano Diretor e como no
município as construtoras e incorporadoras conseguem ter um lobby forte,
eles conseguem fazer com que estas medidas não tenham efeito prático”,
conta Boulos.
O secretário de habitação também destaca a aplicação dos instrumentos
previstos no Estatuto da Cidade, em especial o IPTU progressivo para
potencializar o custo da terra e obrigar o especulador a produzir ou
então a vender a terra e movimentar o mercado.
Porém, nesta queda de braço contra a especulação imobiliária há um
importante complicador: as construtoras e empreiteiras. “A proporção de
vereadores financiados por construtoras em suas campanhas é incrível.
Certamente vai haver uma pressão de quem pagou a conta destas campanhas
para que o voto na Câmara seja para manter as coisas como estão: a
cidade como pura mercadoria e a completa autonomia do setor imobiliário
para pensar as políticas que definem o uso do solo”, critica a liderança
do MTST.
Apesar deste cenário, Boulos destaca alguns pontos positivos de
avanço, como a Cota de Solidariedade proposta no projeto inicial da
prefeitura de revisão, que propõe que, a cada novo e grande
empreendimento imobiliário na cidade, a construtora e ou empreiteira
doem um terreno que seja destinado a construção de moradias de interesse
social.
Os movimentos sociais e outras representações da sociedade civil
seguem participando dos debates promovidos pela Prefeitura e Câmara
Municipal com o objetivo de elaborar propostas para a revisão do Plano
Diretor, em um processo caracterizado pela Secretaria de Habitação como
democrático e transparente. Entretanto estas ações têm caráter
consultivo, pois a redação do Plano será aprovada pela Câmara Municipal.
“Ainda falta muita coisa. O MTST elaborou uma série de emendas à
proposta de revisão do Plano que expressam a posição política do
Movimento. Não será fácil, mas vamos travar batalhas para que elas sejam
aprovadas”, finaliza Boulos.
(GGN)

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