A Rede Globo
de Televisão recomendou a seus jornalistas, inclusive os que trabalham
em suas 122 (cento e vinte e duas) emissoras afiliadas, “que a Copa e a
seleção brasileira são uma paixão nacional, mas que irregularidades
deverão ser denunciadas e ‘pautas positivas’ deverão ser evitadas, a não
ser que ‘surjam naturalmente’. Reportagens que mostram como a Copa está
beneficiando grupos de pessoas, como os comerciantes vizinhos a
estádios, já não estão sendo produzidas para o Jornal Nacional”.
No
telejornal SBT Brasil, a âncora fez aberta apologia de “justiceiros”
vingadores que espancaram, despiram e acorrentaram pelo pescoço um
suspeito adolescente, de 15 anos, a um poste no Flamengo, no Rio de
Janeiro.
A
recomendação da Globo e a posição defendida no SBT – concessionárias do
serviço público de radiodifusão – teriam alguma relação com o aumento
da violência urbana?
Mídia e violência
Em artigo
recente, neste Observatório, comentei a “pauta negativa” do jornalismo
regional em Brasília que chamei de “jornalismo do vale de lágrimas”).
O
que me traz de volta ao tema é, especificamente, a alteridade cínica do
jornalismo do vale de lágrimas na cobertura da violência urbana. Esse
tipo de jornalismo “faz de conta” de que a mídia não tem qualquer
responsabilidade em relação ao que ocorre na sociedade brasileira. Ela
seria apenas uma observadora privilegiada cumprindo o seu papel de
tornar pública a violência e cobrar mais policiamento dos governos local
e federal – como se a solução da violência fosse um problema apenas de
mais ou menos policiamento.
Por várias vezes tratei dessa
alteridade cínica neste Observatório, sobretudo em função das evidências
acumuladas ao longo de anos de pesquisa em vários países que relacionam
a violência ao conteúdo da programação da mídia, sobretudo da televisão.
Ainda
na década de 1990, em palestra que fez na Universidade de Brasília, Jo
Groebel – professor da Universidade de Utrecht, na Holanda, e
representante da Sociedade Internacional de Pesquisa sobre Agressão nas
Nações Unidas – não deixou dúvidas sobre a existência de uma relação
entre a predominância da violência na programação da televisão e a
tendência para a agressividade de jovens e adultos. Baseado em mais de
20 anos de pesquisa ele afirmou que a televisão “faz com que as pessoas
pensem que a violência é normal” e que “quanto mais desigual a estrutura
da sociedade maior o impacto da violência mostrada na TV”.
Nos
Estados Unidos, os “National Television Violence Studies”, financiados
pela National Cable Television Association (NCTA), também realizados nos
anos 1990 por um pool de grandes universidades – Califórnia, Carolina
do Norte, Texas e Wisconsin –, confirmaram as conclusões de Groebel e
geraram uma série de recomendações sobre o conteúdo da programação para a
indústria de entretenimento.
Em 2008, foram divulgados os
primeiros resultados de uma longa pesquisa realizada por professores da
Rutgers University, nos EUA, que vincula violência na mídia e
agressividade em jovens. No estudo, foram entrevistados 820 adolescentes
do estado de Michigan. Destes, 430 eram alunos do ensino médio de
comunidades rurais, suburbanas e urbanas. Outros 390 eram delinquentes
juvenis detidos em instituições municipais e estaduais, distribuídos
equilibradamente entre os sexos masculino e feminino. Pais ou guardiões
de 720 deles também foram entrevistados, assim como os professores ou
funcionários que lidavam com 717 dos jovens.
A pesquisa revelou
que mesmo considerando outros fatores como talento acadêmico, exposição à
violência na comunidade ou problemas emocionais, a “preferência por
mídia violenta na infância e adolescência contribuiu significativamente
para a previsão de violência e agressão em geral”. E conclui: “você é o
que assiste”, quando se trata da população jovem.
Certamente
outras pesquisas atualizam e confirmam esses resultados, além de
incluir também o cinema e os videogames, estes últimos um fenômeno mais
recente.
Será que a presença maciça da violência na programação
de entretenimento da mídia eletrônica e da televisão brasileira (aberta e
paga), em especial, não é um dos fatores que contribui para o aumento
da violência urbana?
A mídia e a Constituição
Um dos artigos não regulamentados da Constituição de 1988, o 221, reza:
A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
Será
que praticando o jornalismo do vale de lágrimas, excluindo a pauta
positiva e defendendo os “justiceiros” vingadores, a grande mídia
brasileira está cumprindo a Constituição de 1988?
A quem cabe a fiscalização dos contratos de concessão desse serviço público?
Com a palavra o Ministério Público e o Ministério das Comunicações.
(Venício Lima)

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