"Duas ou três vezes por dia o motorista João Carlos Cunha Braga saía do pátio de carregamento da Cerpasa, na rodovia Arthur Bernardes, com 500 grades de cerveja. O destino da carga, conforme a nota fiscal que a acompanhava, era Porto Velho, capital de Rondônia. Mas, ao invés de percorrer mais de três mil quilômetros de estrada, João Carlos parava poucos quilômetros adiante. As cervejas ficavam mesmo é no depósito da Distribuidora Brasileira de Bebidas, em Castanhal.
Na fábrica ninguém parecia estranhar que um caminhão fizesse duas ou três viagens diárias para Porto Velho, tarefa quase impossível mesmo se o meio de transporte fosse um avião a jato. As notas foscais, evidentemente incorretas, jamais foram questionadas pela fiscalização tributária, até que a polícia, o Ministério Público e a própria SEFA desencadearam, no início do ano, uma operação que flagrou a atuação de uma autêntica quadrilha da cerveja.
O produto mandado para outros estados recolhe 12% de ICMS. O produto comercializado internamente no Pará paga 25% de imposto. Pelo menos três distribuidores exclusivos da cerveja Cerpa vinham praticando esse golpe contra os cofres públicos, declarando a remessa para outros estados de cerveja que vendiam aqui mesmo.
Cada um dos três distribuidores tinha sua própria área de atuação, sugerindo a existência de um esquema geral por trás deles: a Distribuidora de Bebidas Nataribu, com sede em Ananindeua, "mandava" cerveja para Tocantinópolis, no Tocantins; o mercado da Distribuidora Brasileira de Bebidas, estabelecida em Castanhal, era Porto Velho; já a Distribuidora Lima, de Santa Izabel, dizia operar em Açailândia, no Maranhão.
As três distribuidoras movimentavam diariamente 4500 grades de cerveja entre os três municípios, um volume muito acima do que parece sugerir a capacidade econômico-financeira dos seus supostos donos. Mas se a história do negócio é nebulosa, o registro das fraudes foi muito bem documentado no inquérito conduzido na Divisão de Investigações e Operações Especiais da Secretaria de Segurança Pública pelo delegado Clóvis Martins.
Através das manobras, os distribuidores de cerveja cometeram os crimes de simulação de operações interestaduais com firmas inexistentes de outros estados, já paralisadas ou fantasmas. O motorista João Carlos Braga disse que todos os fiscais da Secretaria da Fazenda de plantão no posto de Marituba cobrava 50 reais de cada caminhão que deixavam passar irregularmente. Para evitar o "pedágio", os motoristas resolveram trafegar por dentro de Marituba, contornando o posto da SEFA, mas os fiscais descobriram e começaram a ir ao escritório da firma de José Expedito de Carvalho em Castanhal, a Distribuidora Brasileira de Bebidas, cobrar sua "parte".
Contou João Carlos que, em outubro do ano passado, dirigia pela rodovia Augusto Montenegro quando foi abordado por três fiscais da SEFA, que estavam num carro oficial. Ao perceberem que se tratava do "esquema da cerveja de Castanhal", levaram o caminhão para a delegacia fazendária da Tavares Bastos. Por telefone, exigiram de José Expedito o pagamento de mil reais para liberar o caminhão. Nesses termos, não houve acordo. decidiram aceitar esse valor na forma de 57 grades de cerveja. Nova negativa do dono. Afinal, o acordo foi estabelecido em 15 grades de cerveja.
Apesar de todas as provas existentes nos autos, a juíza Maria Tereza Sereni Murrieta concedeu habeas corpus aos denunciados e mandou trancar os inquéritos policiais na DIOE. Sua ordem só não foi cumprida porque os inquéritos já haviam sido remetidos para Ananindeua, Santa Izabel e Castanhal, comarcas que estão fora da sua jurisdição. Mesmo assim, o promotor Nelson Medrado contestou a medida para que prossigam as investigações sobre essa autêntica quadrilha da cerveja."
Posteriormente, ordens superiores fizeram "perdoar" toda essa roubalheira, em forma de medida tributária, caso que foi parar no STJ e até hoje dorme o sono pesado da impunidade, sem que haja previsão de seu julgamento. Lamentável!

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