“Estamos diante de uma explosão de demanda”, disse o diretor da
Agência Nacional de Cinema (Ancine), Manoel Rangel, durante palestra
sobre a Lei 12.485/2011
e as cotas para conteúdo de produtoras independentes nos canais de TV
por assinatura. O debate foi parte da programação do Rio Market, evento
paralelo ao Festival do Rio.
Com a entrada em vigor da lei,
a partir de novembro deste ano, os canais de TV por assinatura terão de
oferecer uma quantidade de horas de programação com produção nacional e
independente crescente.
Até 2013, os canais por assinatura deverão ter 3h30 por semana de
conteúdo nacional em horário nobre (período das 18h às 24h nos canais
abertos e fechados convencionais e das 11h às 14h e das 17h às 21h nos
canais para crianças e adolescentes), do qual metade será de produtoras
brasileiras independentes. A entrada em vigor da lei é tratada pelo
setor como suficiente para o início de um novo momento da indústria de
audiovisual nacional.
Segundo Rangel a lei, marcada por um intenso trabalho de costura entre o
setor, o Conselho Superior de Cinema e o Congresso Nacional, representa
um imenso acerto ao estabelecer as políticas de carregamento, que
cotizam o tempo de programação, a exemplo do que é feito há mais de uma
década com o cinema nacional.
A política conduz o mercado ao papel de financiador da produção
independente nacional, que necessita, em grande medida, de recursos
públicos para se manter e dar continuidade à sua produção. O próprio
conceito de independente, que considera, entre outras coisas, os
direitos da produtora sobre seu produto, mesmo que tenha investimento
minoritário de recursos em sua execução, é fundamental para estruturar
as iniciativas, explicou Rangel.
Embora a obrigação exija uma nova postura de mercado, a inclusão do
setor no Plano Brasil Maior, como uma das indústrias prioritárias para
investimentos, deve permitir uma estruturação definitiva, e, aliada ao
uso dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, que segundo Rangel
devem atingir R$ 600 milhões no curto prazo, vão permitir a compra de
equipamentos e novas dinâmicas de distribuição e exibição.
A abertura que a lei dá, integrada ao Plano de Diretrizes e Metas para o
Audiovisual, traçado pelo Conselho Superior de Cinema e aberto à
consulta pública até 22 de dezembro na página da Ancine na
internet, leva também a uma possibilidade de estruturação de canais
brasileiros fora do país, não apenas com conteúdo mas com programação de
empresas nacionais, a exemplo de canais como os dos grupos Warner,
Discovery e Fox nos pacotes de TV por assinatura brasileiros.
A medida seria essencial para garantir a estruturação do setor no país e
poderia se valer dos conteúdos que têm sido criados para dar suporte à
Lei 12.485, disse Rangel.
Para o presidente da Associação Brasileira de Produtores Independentes
de Televisão (ABPITV), Marco Altberg trata-se de “uma pequena revolução
no setor”. Mas Altberg relativizou a conquista, ao dizer que as
produtoras têm condições de atender sem dificuldades à demanda, pois o
volume exigido na verdade é pequeno. Um canal exibe, em média, 160 horas
de programação por semana.
Levantamento da Ancine para o setor, com dados de 2011, registrou que
80,5% da programação nas TVs pagas foram programas estrangeiros,
ocupando 92,6% do tempo de tela. Na pesquisa estiveram inclusos canais
como o Canal Brasil, que trabalha quase exclusivamente com conteúdo
nacional.
Segundo as novas regras do setor, os pacotes de programação das
operadoras de TV por assinatura deverão ter obrigatoriamente um canal
majoritário de conteúdo e programação nacional para cada três canais
estrangeiros.
“As leis criaram um mecanismo que garante o escoamento, dando mais
paridade de poderes na negociação entre produtora e canal”, disse,
durante o evento, o advogado Bruno Senna, especializado no setor.
Apesar das medidas, houve críticas de produtores à falta de incentivos
na profissionalização da gestão das pequenas empresas do setor. A
secretária de Audiovisual do Ministério da Cultura, Ana Paula Santana,
disse que a Secretaria de Audiovisual fará, em parceria com o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), oficinas de
treinamento e qualificação, até o primeiro semestre de 2013, mas não deu
detalhes quanto ao enfoque ou ao alcance das medidas em termos de
distribuição geográfica.
O mercado de produções é historicamente liderado pelos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, que também estão na vanguarda no ranking da captação de recursos do setor e do número de obras produzidas.
(Agência Brasil)

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